Os pais têm autoridade. Com efeito autoridade vem de autor. Os pais, ao colaborarem com Deus na vinda ao mundo de novos seres – os seus filhos -, são em parte autores e têm por isso autoridade.

A autoridade está relacionada com a responsabilidade. Os pais são responsáveis pela educação dos seus filhos. Têm, por isso, autoridade. Uma autoridade que serve para que os filhos se eduquem. Uma autoridade relacionada com a educação. Uma autoridade-serviço.

Pensar, informar-se decidir, comunicar claramente e fazer cumprir são fases sucessivas no exercício desta autoridade. Prescindir das primeiras ou das últimas destas fases, pode levar à improvisação e consequentemente ao autoritarismo – exercício arbitrário da autoridade – ou ao “ceder em tudo” e como consequência ao abandonismo – não exercício da autoridade. Nem o autoritarismo nem o abandonismo educam, porque em ambos os casos não há um exercício correcto da autoridade que se tem. E a autoridade tem-se – têm-na os pais – para acabarem de ser autores, para que a paternidade e a maternidade não se fiquem só na procriação.

Os pais têm autoridade como uma possibilidade de serviço e não como uma possibilidade de poder. Quando autoridade e poder se contrapõem, o que se está realmente enfrentando é o afã de serviço e o afã de domínio.

Os pais têm o poder de tomar decisões influentes e o poder de sancionar positiva ou negativamente: prémios e castigos. Quando utilizam este poder, em serviço de uma verdadeira educação dos filhos, então autoridade e poder não se contrapõem. Este poder exercido sóbria e correctamente faz parte da autoridade-serviço.

O afã de domínio é incompatível com a autoridade assim entendida. O poder é então utilizado para dominar, não para servir. Pode continuar-se a falar de autoridade, mas já o não é, pois os seus fins mudaram.

Este afã de domínio pode dar-se na autoridade dos pais por imaturidade e por esclerotização. Dá-se quando os pais consideram os seus filhos com objectos da sua propriedade ou quando se projectam neles ou quando os mostram como coisas que se têm.

Quando os pais ordenam alguma coisa, devem pensar antes – é questão de segundos – porque é que o fazem? Pelo bem dos filhos ou por capricho ou mania pessoal? Quando deixam de mandar alguma coisa devem também pensar porque o não fazem. Por sobriedade ou para não complicarem a vida? A expressão “para que haja paz” quer às vezes dizer “para que haja comodidade”.

Dominar e ser dominados, são com frequência aspectos de uma mesma realidade pessoal. Por uma má compreensão das relações conjugais, muitas vezes um dos cônjuges acaba por ser dominado pelo outro, aquele vai então compensá-lo, a seu modo, exercendo domínio – não autoridade – sobre os seus filhos. Outras vezes, uma pessoa que é dominada no trabalho ou nas suas relações sociais, pretenderá dominar nas relações familiares.

Às vezes o nosso afã de serviço e o nosso afã de dominar andam misturados; queremos servir e queremos que nos sirvam, consoante nos apetece num determinado momento. Umas vezes é o carinho que manda, outras vezes é a preguiça. Em determinados momentos sentimo-nos modestamente heróis e noutros sentimo-nos vítimas. O que nos falta é um motivo de peso que nos mantenha equilibrados e que nos permita servir livremente.

Para se ser livre, servir é responder a determinados valores. No fundo, um ser livre só pode servir quando acredita e ama a Deus. O serviço aos outros, sem Deus, acaba no cepticismo, no desprezo ou no afã de domínio. Por isso, os pais que querem muitos aos seus filhos e não têm fé, deveriam pedi-la – ainda que fosse só por amor aos filhos – por todos os meios e não oferecer obstáculos a este Dom de Deus.

A autoridade-serviço harmoniza o respeito e exigência, estímulo e liberdade, manifestando-se em mil pormenores de exemplos e de sugestões, de bom humor e de firmeza. Apoia-se em diversas atitudes positivas e exerce-se com naturalidade, sem formalismos nem claudicações. Contribui para criar um clima de segurança interior na vida dos filhos, porque é uma manifestação de amor verdadeiro.

A autoridade-prestígio

Os pais têm autoridade pelo facto de serem pais, mas a autoridade pode manter-se, perder-se ou recuperar-se pelo modo de comportamento.

Como acabámos de ver, a autoridade é um serviço, se aquele que a exerce tem o afã de servir e não de dominar. Este afã de serviço – com as atitudes positivas que implica – é necessário mas não suficiente no exercício da autoridade. Para servir com autoridade é necessário o prestígio.

Poderíamos reflectir no modo de ganhar no dia a dia a autoridade para depois a exercer em benefício dos filhos, para que cheguem a ser pessoas livres e responsáveis, bons cidadãos, bons profissionais, etc.

Como se tem prestígio junto dos filhos? Este prestígio tem-se sobretudo pelo modo de ser. A este respeito, poderíamos destacar o bom humor, a serenidade e a naturalidade. Há diferentes estilos pessoais de bom humor, mas todos eles se apoiam no optimismo – em saber descobrir primeiro o positivo de cada pessoa e de cada situação – e na confiança – em saber esperar, porque há sempre razões suficientes para esperar – . O mau humor permanente, pelo contrário, além de não ter fundamento, é prejudicial, porque envelhece e desprestigia.

A serenidade apoia-se nos mesmos fundamentos: optimismo e confiança, e assegura as melhores condições para se poder actuar com sensatez e flexibilidade. O nervosismo, pelo contrário, só serve para piorar a situação e desprestigia. Dos pais, e em geral dos educadores, espera-se que utilizem inteligentemente a sua inteligência – a própria e um pouco a alheia – e que não percam as estribeiras perante uma situação difícil – por outras palavras, que tenham paciência.

A naturalidade apoia-se numa conduta coerente que com certa frequência terá que ir contra a corrente. Têm prestígio os pais que são muito compreensivos e muito flexíveis e que ao mesmo tempo são capazes de manter uma linha de actuação sem solavancos, graduando a exigência segundo as circunstâncias, sem nunca deixar de exigir e de exigir-se. Opõem-se à naturalidade e desprestigiam: a solenidade, o dramatismo, a voz entrecortada, o deitar em cara as coisas, o lamentar-se e os falsos juízos.

Até se tem ou não prestígio, pelo modo como se reage perante o trabalho. Os pais deveriam perguntar-se se estão contentes com o seu trabalho. Se fazem bem, sem queixas e evitando o mau humor perante as contrariedades – grandes ou pequenas – do seu mundo laborai e se contam coisas do seu trabalho. Em todo o caso, trata-se de reflectir acerca do modo como cada um dos cônjuges vê o trabalho em geral, e em particular o seu, influindo também no prestígio a consideração tida pelo trabalho do outro cônjuge.

A gama de possibilidades é muito ampla, desde a visão estreita de quem só valoriza o trabalho pela sua remuneração económica, até quem, sem lhe tirar o valor de profissionalidade a que corresponderá um salário justo, descobre na sua actividade profissional uma oportunidade diária de enriquecimento interior e de serviço aos outros, o que equivale a dizer, de desenvolvimento da sua liberdade pessoal. E quando se tem fé, esta mesma oportunidade elevada também a nível sobrenatural: santidade e apostolado.

Por outro lado, é muito diverso o grau de coerência entre o que se pensa do trabalho e o modo de o realizar no dia a dia.

Desprestigia a falta de coerência entre um entendimento correcto e profundo do trabalho – tanto do homem como da mulher – e um modo de o realizar pobre e sem garra. Desprestigia uma actividade profissional realizada exclusivamente em função da remuneração, seja esta excessiva ou insuficiente para o sustento da família. Desprestigia um trabalho realizado sem gosto, sem alegria; um trabalho sem intensidade e sem qualidade; um trabalho rotineiro e sem objectivos, sem imaginação, sem detalhes, sem um constante afã de melhora, sem uma certa ordem. Desprestigia a falta de honradez no trabalho, que se pode manifestar de diversos modos, especialmente sob a forma de passividade: aberta ou dissimulada, egoísta ou abúlica, centrada nos direitos ou nas compensações, ou de tipo “amparo” ou de tipo agressivo.

Tem-se prestígio com os filhos pelo interesse com que se segue o seu trabalho, principalmente os estudos. Não me refiro aos seus estudos em casa – nos quais às vezes os pais chegam a ser verdadeiros explicadores, excepto nos casos em que procuram mesmo um professor particular -, mas sim ao seu lugar habitual de estudo: o centro educativo. Os pais que desejam manter ou melhorar a sua autoridade-prestígio não deveriam descuidar este aspecto da questão e deveriam até perguntar-se: visito o seu lugar de trabalho, o centro educativo? Falo com os professores? Sei, exacta ou aproximadamente como cada professor dirige o trabalho deste ou daquele filho? Posso acrescentar alguma informação que sirva para melhorar a qualidade de trabalho realizado? Comparo o meu trabalho e o do meu filho, não como um resultado, mas como um processo? Chegará ele a ser tão bom ou melhor profissional do que eu?

Posta a questão nestes termos, a conversa entre pais e filhos sobre o trabalho não se reduz a umas exigências vagas relativamente a umas recordações ideais e esbatidas do que nós próprios fazíamos nas suas idades – quer dizer, a uns afazeres de criança de hoje e de sempre – , mas refere-se ao trabalho como um exercício de liberdade responsável de pessoas humanas, embora variem as idades, as circunstâncias e alguns dos seus fins.

Os pais devem dar a conhecer paulatinamente aos seus filhos os êxitos e as dificuldades por que passam no trabalho, informando-os num clima de bom humor e sentido desportivo, o que irá servir como ponto de partida para os filhos falarem dos seus êxitos e das suas dificuldades no seu próprio trabalho de estudantes e, se a idade o permite, nas suas actividades laborais complementares.

Muito mais do que se possa supor, desprestigia os pais no exercício da autoridade toda a tentativa consciente ou inconsciente de puerilizar a educação – que, por paradoxo, é um processo de carácter vitalício – ou de puerilizar o estudo, tarefa também vitalícia, para quem deseje ser, pelo menos, um bom profissional.

A lei da unidade – que não tem nada que ver com a lei da uniformidade – é a principal fonte de prestígio na relação educativa. A autoridade-serviço requer dos pais um conhecimento profundo e sucessivo dos filhos. A autoridade-prestígio requer que os filhos conheçam melhor os seus pais, precisamente naquilo em que eles próprios estão lutando – estimulados pela autoridade paterna -: no seu trabalho, nas suas relações sociais, na sua vida de fé – se a têm – , numa série de virtudes humanas, na sua orientação profissional – que também é, e ainda dentro do próprio trabalho, uma tarefa de qualquer idade, excepto para os que se tenham aburguesado profissionalmente -, nas suas diversões, entendidas no seu sentido correcto, amplo e positivo.

Também se pode ter prestígio com os filhos pelo modo como se cuidam das relações com os amigos. Os pais que desejam fomentar a sua autoridade-prestígio deverão interrogar-se nos seguintes termos: Procuro não falar mal de ninguém? Defendo a boa vontade dos meus amigos, sem alargar a minha defesa a questões de tipo técnico ou de tipo decisório, nas quais possam efectivamente ter cometido erros? Procuro viver a lealdade? Sou pessoa em quem se pode confiar?

Se um pai ou uma mãe respondem negativamente a estas perguntas ou a outras similares, correm sérios riscos de se desprestigiarem perante os seus próprios filhos. É lógico. Se os filhos captam as suas apreciações injustas com os outros, porque são os pais que imaginam, antes de tudo, o mal e não só o pensam como se atrevem até a expressá-lo em juízos temerários, não admitindo por princípio que seja possível a rectidão ou, pelo menos, a luta constante por um portar-se bem. Estes filhos deduzem, consciente ou inconscientemente, que os pais farão o mesmo com eles em qualquer ocasião e assim a sua autoridade ficará interdita.

Para aqueles que desejam manter a sua autoridade-prestígio, será, talvez, este um aspecto central da sua luta interior para melhorar. Tratando-se de pessoas que têm fé devem saber que “a humildade é a virtude que leva a descobrir que a demonstração de respeito pela pessoa – pela sua honra, pela sua fé, pela sua intimidade – não são convencionalismos exteriores, mas sim, a primeira manifestação de caridade e de justiça. E se deste modo não respeitam os outros – sejam ou não seus amigos – tão pouco viverão a caridade e a justiça com seus próprios filhos, quando as coisas não correm a seu belo prazer. De qualquer forma, os filhos instruem-nos. Outras vezes limitam-se a comparar o conceito de amizade dos seus pais como da gente jovem e os adultos, com grande frequência, ficam a perder.

Assinalámos três âmbitos nos quais é preciso esforço para melhorar, três áreas em que é possível ganhar em prestígio: o modo de ser próprio, em geral e em particular, na família; o modo de reagir perante o próprio trabalho e o dos filhos; o modo de se comportar nas relações sociais, especialmente com os amigos.

A autoridade condicionada

Se a autoridade consistisse só numa espécie de qualidade pessoal ou fosse unicamente resultado de um esforço pessoal seria de esperar sempre êxito. Mas a autoridade é uma relação, em que há que considerar pelo menos três elementos: os pais, os filhos e o ambiente. Por isso, apesar do esforço pessoal para fazer o melhor possível, pode-se ganhar ou perder. Consequentemente há que saber ganhar e saber perder.

O facto de a autoridade ser uma relação não tira nenhum valor a tudo o que se disser sobre o prestígio e o afã de serviço. Pelo contrário, sem esse estado de luta permanente por melhorar pessoalmente, os pais estariam em péssimas condições para abordarem os problemas que esta relação implica.

Poderia dizer-se de outro modo: a autoridade dos pais é uma autoridade condicionada pelas suas próprias limitações, pela dos filhos e pelo ambiente.

No exercício da sua autoridade, cada cônjuge encontra-se com uma série de limitações internas que sem dúvida o prejudicam. Poderá faltar-lhes reflexão, decisão, oportunidade, perseverança, memória, sobriedade, firmeza, flexibilidade, confiança, generosidade ou qualquer outra qualidade necessária, em determinado grau, para que a sua autoridade não seja condicionada.

Como se isto fosse pouco, o outro cônjuge pode ainda oferecer uma série de limitações pessoais, complementares ou não das anteriormente citadas, donde resulta a autoridade ser duplamente condicionada.

Cada um dos cônjuges pode estar lutando com mais ou menos êxito em âmbitos, em que a autoridade serviço se pode ganhar ou perder. Deste modo, podemos encontrar-nos com duas autoridades-prestígio em confronto: a do pai e a da mãe.

A autoridade-prestígio deve, em primeiro lugar, gastar-se em fomentar o prestígio do outro cônjuge. Qualquer delicadeza neste sentido é sempre pequena. Há elogios que desprestigiam o elogiado, há exigências que desprestigiam o que exige, há silêncios inoportunos, há sugestões que podem ajudar os filhos a descobrir determinados valores no seu pai ou na sua mãe, e que lhe tinham passado despercebidos, há coisas ditas como de passagem e que ajudam a amar-se mais, quer dizer, a estabelecer uma base mais sólida para o exercício da autoridade.

Uma forma de potenciar a autoridade do outro cônjuge é aproveitar todas as ocasiões para uma conversa privada com cada filho destacar, discretamente, os pontos fortes do outro cônjuge, fazendo-o de uma maneira sugestiva: – “Reparaste no…?” e continuar passando a outra coisa.

Esta potenciação da autoridade do outro cônjuge só é possível quando se puder fazer sinceramente, sem mentir nem sequer exagerar. Isso pressupõe um conhecimento mútuo de cada cônjuge bastante bom, partindo não só do amor, mas também do optimismo, da confiança e do desejo de melhorar. Pressupõe-se também um afã de servir, e não de dominar, em ambos os cônjuges e, consequentemente, um desejo eficaz de respeitar e respeitar-se.

Algo muito prejudicial para o exercício harmónico destas duas autoridades – a paterna e a materna – é o afã de domínio num dos cônjuges, ou a luta pelo domínio no âmbito das relações conjugais. Cada cônjuge deverá reflectir acerca desta tendência para dominar ou a ser dominado. Há pessoas que têm medo de não serem respeitadas e, como reacção, tendem a dominar.

A autoridade dos pais está condicionada por esta dupla fonte de limitações pessoais. Apesar de um e outro se proporem, seriamente, superar algumas das suas limitações, trata-se de se porem de acordo acerca de como e para quê educar os filhos e consequentemente de como harmonizar com o prestígio – em parte comum, em parte complementar- as autoridades paterna e materna em serviço de uma melhor educação de cada filho.

A autoridade dos pais está condicionada pela existência de outras pessoas com autoridade, relativamente aos seus filhos, como por exemplo, os professores. Há professores que conseguem ter mais autoridade sobre os seus alunos do que os próprios pais. Teoricamente pode dizer-se que os professores são delegados dos pais, ou melhor, colaboradores qualificados. De facto, só serão colaboradores se existir colaboração entre o centro educativo e a família.

Viver com outras pessoas na mesma casa é viver em outras pessoas, compartilhar a intimidade. Considerando a coisa deste ponto de vista, como projecção espacial da intimidade, é fácil de ver que cuidar do bom aspecto interior da mesma – a decoração, a limpeza, a ordem, etc… – é eo ipso cuidar do carácter harmónico e acolhedor da própria intimidade. Cuidar da casa de forma acolhedora para os outros tem o mesmo sentido que o esforço ascético encaminhado para a obtenção de uma intimidade harmónica e acolhedora para os outros. Assim o carácter sisudo ou cordial, harmónico ou distorcido, suave ou estridente da própria intimidade vai-se projectar especialmente na disposição acolhedora ou fria, harmónica ou desordenada, dos elementos decorativos e funcionais da casa. Quando alguém decorou ou mobilou pessoalmente a sua casa, realizou de um modo mais ou menos perceptível um teste projectivo. A casa está relacionada com o desenvolvimento da intimidade pessoal de cada um dos membros de uma família. A casa pode portanto contribuir para esse desenvolvimento, em função do seu exterior e do seu interior. O interior depende em boa parte de como seja a própria intimidade de cada cônjuge, o exterior depende de muitos outros factores, em grande parte alheios à educação.

A autoridade dos pais está também condicionada pela casa. Por outras palavras, o exercício óptimo da autoridade dos pais realiza-se numa situação também óptima da casa, na qual pais e filhos se encontram com gosto: em família. Mas a casa agrupa, normalmente, uma série de condicionamentos de diversos tipos, geralmente carências ambientais, porque as autoridades, os arquitectos, as empresas construtoras, os responsáveis pelo crescimento das cidades, etc., não centram os seus objectivos na família como entidade educativa nem na casa como protecção da intimidade familiar.

Por outro lado, é muitas vezes necessário proteger uma intimidade familiar que não existe, porque um ou os dois cônjuges não cultivaram a sua intimidade pessoal, muito relacionada ao mesmo tempo com o desenvolvimento da própria liberdade.

O tema está relacionado com o pudor. Por outro lado, “a supressão do pudor é um sinal da nossa época, porque implica a supressão da intimidade: a massificação, a dissolução da pessoa”.

A autoridade dos pais fica condicionada e até anulada por esta falta de pudor e a consequente falta de intimidade em muitos deles e nos outros. O problema deve ser atacado por aqui, na sua raiz, cultivando e respeitando a própria intimidade e a alheia. E se a intimidade pode ficar protegida ou desamparada em função da linguagem, do vestuário e da casa, evidente se torna que são três aspectos que tem que cuidar na educação própria e alheia, mediante o serviço da autoridade e da auto exigência.

Antes de continuar a referir os condicionamentos da autoridade paterna conviria fazer notar que uma autoridade condicionada não deixa de ser autoridade e, consequentemente, os pais devem continuar a exercê-la, se são conscientes de que é uma influência positiva e poderosa no processo da melhora dos filhos. As limitações próprias, as do outro cônjuge, as carências ambientais, as pressões do ambiente, são tudo condicionamentos cujo conhecimento é necessário para se ser realista, para saber quais são as dificuldades, para estabelecer prioridades na luta pessoal. Nunca para se demitir nem para desanimar.

Depois das limitações próprias, da falta de esforço e afã de superação pessoal e da falta de harmonia conjugal, as pressões do ambiente constituem o maior condicionamento da autoridade dos pais.

A autoridade dos pais é uma autoridade rodeada de condicionalismos, alguns dos quais são gravemente perniciosos para a educação dos filhos. Mas esta autoridade condicionada será eficaz. Por um lado, se o que a move é um afã de servir e se os pais procuram não só manter como até incrementar o seu prestígio no seu modo de ser, na família, no trabalho, nas relações sociais e na conduta espiritual. E por outro, se sabem manter-se vigilantes no sentido de não serem influenciados negativamente, por osmose, por essas pressões ambientais que terão que neutralizar com a sua influência.

Oliveros Otero

Cadernos Educação e Família, nº 17