Estava um dia cinzento e triste. Talvez o sentisse mais desta forma porque sabia a pesarosa tarefa que tinha de enfrentar…

Até gostava de andar de comboio, viajar, fugir da rotina um pouco, descer a rua augusta, observando cada transeunte, cada gesto, cada arte que ali se refugia a cada canto e respirar o ar de preguiça que nos chega assim que avistamos o Tejo. Mas neste dia nada disso me animava, mais um dia perdido nas filas da eterna burocracia do sistema publico… desta vez para tratar do B.I., só de pensar apetecia fugir.

Entrei no comboio vazio, a enchente da manhã já se tinha escoado, embora houvesse uns resistentes de cara fechada nalguma revista ou jornal, fingindo viver num mundo à parte cheio de luz e glamour, outros tão sisudos como o tempo que fazia lá fora, outros, ainda, com o olhar distante perdido na paisagem feita de cimento e cal que teimava em permanecer imutável na janela.

Duas paragens depois, ganhei um companheiro de viagem. Fato escuro, gravata a condizer e todo um arsenal que transmitia a quem o via o quão ocupado e responsável seria. Chegou apressado, pousou a sua mala de executivo no banco do lado e foi tirando o sobretudo que pousou nas pernas, sempre com a testa franzida, de quem está constantemente preocupado com os problemas do seu mundo interior. Pegou na mala que abriu em cima do sobretudo e ali mesmo montou o seu escritório. Imaginei-o a fechar a “porta” e a pendurar o tradicional letreiro NÃO INCOMODAR!

Desliguei… e também eu fiquei amorfa, impávida e serena a olhar o cimento que corria lá fora, num corrupio próprio da zona urbana.

Não sei quanto tempo passou, mas algo me despertou repentinamente da minha apatia.

– Não, mãezinha vem mais p`ra frente, quero ver a linha!…

– Hoje não, Joel. Ficamos mesmo aqui, vem.

A contragosto o Joel lá se sentou junto à mãe e à (suponho) irmã no primeiro banco da carruagem, sempre a rir aos saltinhos e a despertar todos os apáticos que como eu viajavam naquela manhã cinzenta. Tinha uns olhos escuros e grandes que pareciam voar, seguindo todos os pássaros do mundo por todos os céus possíveis e uma gargalhada tão cheia de melodia que parecia fazer cócegas nos nossos sentidos e contagiar os nossos lábios, forçando-os a sorrir também. Mas a sua pele cor de chocolate fazia com que ninguém reparasse nele durante mais de um segundo, talvez por medo de encoraja-lo a chegar mais perto, talvez por vergonha de achar graça a um negrito irrequieto…

Joel continuou a rir e a fazer perguntas à medida que o comboio ia devorando os metros de linha à sua frente:

– Mãe… de que cor é o céu?

– Então, Joel?… Não vês que é azul?

– Mas às vezes não é… ontem tava preto…

– Porque era de noite…
– Ah…

– Mãe!… Posso ir à janela? Troca de lugar comigo…

– Tá bem… anda.

– Mãe!… Tens papel? Posso fazer um desenho?

A conversa catapultava, no meio de risos e trejeitos. A mãe pressionada pelos olhares curiosos e inquiridores, ia-se desculpando:

– Desculpe, ele é hiperactivo… não consegue ficar quieto.

Os olhos reprovadores desviavam-se indiferentes como se fosse um crime odioso deixar uma criança rir e falar de forma tão extravagante e incomodativa para as tão importantes poses assumidas por cada um dos tristes ocupantes daquela carruagem.

Encostei a cabeça no vidro e dormitei, estava cansada e aquele riso embalava-me e transportava-me para longe daquele cenário amorfo.

O riso foi aumentando de volume e frequência, o que me fez abrir os olhos e vi o Joel com um balão azul na mão e, apesar dos protestos da mãe, a lançá-lo no ar, o que fazia com que tocasse ao de leve em cada um dos passageiros sisudos.

Pensei que agora é que era… iam ficar furiosos com o pobre garoto!

Como se engana a alma humana… a cada toque do balão Joel ganhou um sorriso e um companheiro de brincadeira, todos os rostos se iluminaram e o dia ganhou cor. Até o meu companheiro de viagem tirou o letreiro da “porta”, fechou o escritório e, olhando por cima dos óculos, desenhou um esboço de sorriso, ao qual Joel respondeu com uma sonora gargalhada, logo seguida da minha que não consegui mais prender na garganta, e que me valeu um toque naquele balão carregado de magia que teve o poder de fazer brilhar aquele dia.

Só para que saibam, desisti de tratar do B.I. nesse dia e resolvi descer a rua augusta, observando cada transeunte, cada gesto, cada arte que ali se refugia a cada canto e respirar o ar de preguiça que nos chega assim que avistamos o Tejo.

(Cecília Silva)