Há dias li num jornal que qualquer castigo deixa uma marca de ressentimento, e que, por isso, devemos evitá-lo e até denunciá-lo.

Esta generalização pareceu-me perigosa. Não porque eu esteja a favor do castigo, mas porque ela pode levar muitos pais e professores a pensarem que é mau corrigir, quando isso não é verdade. Tudo depende de o que se entende por “castigo”.

Qualquer educador, seja ele pai ou professor, está investido em autoridade para educar e formar o filho ou o aluno. Parte desse trabalho formativo e educativo exerce-se através das correcções de todos os dias. Se nos for tirada a possibilidade de corrigir, tiram-nos, ao mesmo tempo, a capacidade de educar.

Hoje em dia muitos adultos têm medo de “traumatizar” as crianças se as corrigirem ou lhes chamarem a atenção para maus comportamentos. Há quem nunca diga não aos filhos, por medo a que se zanguem ou a que isso faça descer a sua autoestima. Sem pensarem em que os prejudicamos mais deixando-os no erro ou permitindo-lhes que façam disparates que os possam prejudicar. Quantas bofetadas a tempo salvaram alguma criança que brincava com uma faca ou que se preparava para meter o dedo na tomada da electricidade! É certo que a criança chorou, mas se não o tivéssemos feito nunca mais teria possibilidade de chorar. Muitas vezes pode acontecer-nos, com os adolescentes, que para evitarmos que “chorem” por uma correcção permitimos que venham a sofrer amargamente as consequências de um comportamento que se poderia ter evitado se tivéssemos actuado na altura certa. E, acreditem-me, isto sim é que cria ressentimentos.

Com o passar dos anos

Se pensarmos bem, agora que somos adultos, naquilo que mais nos faz estar agradecidos aos nossos educadores, compreendemos que é precisamente a paciência e constância que tiveram para nos ajudar a formar hábitos e a superar erros e limitações, apesar das nossas zangas e falta de colaboração em muitos casos. Isso implicou uma série de correcções ao longo da vida, com “más caras” nossas em muitas ocasiões, mas que agora agradecemos. E até reconhecemos que somos o que somos graças a elas.

Nunca esquecerei que quando estava no 5º Ano, num exame de Matemática, perspectivei bem um problema e resolvi correctamente as operações, mas ao colocar o resultado esqueci-me de especificar que se tratava da unidade “metros”. A professora considerou errado todo o problema por causa disso! Fiquei zangada, é claro! Mas não me traumatizei nem lhe guardo ressentimento. Pelo contrário, estou-lhe muito agradecida, porque graças a essa correcção não voltei a ter despistes desse género, e isso ajudou-me muito ao longo da vida.

Por outro lado, se nos pusermos a pensar, ninguém nasce sendo já ordenado, ou bem comportado, ou com a prudência necessária, no convívio com as outras pessoas, para não incomodar ninguém. Todas estas características, que dizem tão bem de um adulto, são na maior parte dos casos o resultado de um longo processo de correcções por parte dos pais ou dos professores quando a pessoa era ainda uma criança. A teoria sozinha não forma. Para formar o hábito da sinceridade não basta que digamos à criança que é mau dizer mentiras. É necessário, por um lado, que a motivemos a dizer a verdade e que a felicitemos quando o fizer, para que aprenda a sentir a satisfação de ter feito uma coisa boa. Mas, ao mesmo tempo, se não a corrigirmos quando mentir, continuará a fazê-lo e não conseguirá o hábito desejado.

As más experiências

É verdade que às vezes se abusou dos castigos, chegando a magoar a criança física ou afectivamente. Por isso se compreende que se insista tanto em prevenir esses casos e assegurar que não voltem a acontecer. Mas isso não justifica que se deixe de corrigir e de educar. Por outro lado, devemos recordar que a educação é uma arte e que se deve aplicar de maneira personalizada. Qualquer mãe sabe muito bem que aquilo que lhe serviu para corrigir o filho mais velho muito provavelmente não a ajuda com o mais novo. A maneira de corrigir deve depender da criança que se corrige, da personalidade e da idade de cada um.

Tendo em conta o que se disse anteriormente, é possível dar alguns conselhos práticos para assegurar que os nossos modos de corrigir não prejudiquem as nossas crianças, mas que, pelo contrário, as ajudem a crescer como pessoas.

Por amor

Primeiramente, é muito importante que a correcção seja feita para ajudar a criança a ser melhor, e não porque nos incomodou com aquilo que fez. As crianças têm como que um sexto sentido que lhes permite captarem bem as intenções dos pais e professores. Sabem perceber quando são corrigidos por amor e quando são corrigidos por irritação.

Além disso, com as correcções ensinamo-las a distinguir aquilo que está bem daquilo que está mal. É preciso que sejamos muito consequentes nisto, para que a criança entenda que foi corrigida porque bateu num irmão, e não porque a mãe estava de mau humor. As crianças são mais inteligentes do que aquilo que muitas vezes pensamos, e vão formando os seus próprios critérios de bem e de mal não tanto por aquilo que lhes dizemos, mas sim pelas nossas reacções relativamente àquilo que fazem.

Sempre

Em segundo lugar, não é preciso esperar que a criança chegue à idade da razão para a corrigirmos. Nessa idade já chegamos tarde. A criança começa a formar hábitos desde que nasce, pelo que os primeiros anos são fundamentais para a sua educação. Se não está em idade de entender razões, não lhas dês. Mas não deixes de corrigir imediatamente. Fazes-lhe um grande favor ao ajudá-la a adquirir hábitos desde a mais pequena idade.

A hora de reflectir

Quando a criança já entende razões, é importante que aprenda que tudo o que faz tem consequências. Todo o acto bom terá consequências boas, e todo o acto mau, consequências más. Na vida corrente, as consequências, quer sejam boas ou más, nem sempre se deixam ver instantaneamente. Por vezes demoram anos a chegar, mas chegam sempre. Descuidar a própria saúde, talvez não me afecte imediatamente, mas fá-lo-á mais cedo ou mais tarde. Esforçar-me nos estudos pode não dar resultados imediatos, mas no dia em que encontrar trabalho darei por bem empregues tantas horas de esforço. É preciso ajudar a criança a ver as consequências dos seus actos de forma imediata, para que compreenda esta relação entre o seu comportamento e a consequência, e é aqui que os reforços e os correctivos entram em jogo. Dar os parabéns, ou dar uma palmadinha nas costas são coisas que ajudam a criança a entender que o que fez foi bem feito, e muito provavelmente ela procurará fazê-lo de novo. Uma censura, ou mesmo uma sanção, conforme o caso, far-lhe-ão ver que não deve repetir aquilo que fez. É muito importante que compreenda que o correctivo lhe é aplicado não porque se está zangado com ela, mas que é uma consequência daquilo que fez, e que está nas suas mãos não voltar a recebê-lo.

Saber

É importante que a criança saiba em que é que está a ser corrigido e porquê. De pouco serve tirar-lhe o brinquedo preferido durante uns dias, se ela não souber por que motivo ficou sem ele. Mas, se souber a razão, evitará fazer a mesma coisa no futuro, e podemos dizer que aprendeu.

Proporção

Também é importante que a correcção seja proporcional àquilo que a criança fez, e que o correctivo em si mesmo não lhe faça mal. Não podemos deixar uma criança sem comer, ou a apanhar chuva, por castigo. Mas podemos talvez proibi-la de ver televisão algumas vezes.

Reparando

Ajuda muito, na medida do possível, que o correctivo tenda a reparar o mal que a criança ou o jovem possa ter feito. Desta maneira, por um lado, compreende que as suas acções podem prejudicar os outros e, por outro, aprende a responsabilizar-se por elas.

A sábia prudência

É importante que os correctivos sejam apropriados à idade da criança ou do jovem. Se já estiver em idade de entender as razões, convém esperar pelo momento oportuno para falar com ele, e que ele mesmo aceite o correctivo como consequência daquilo que fez. Em muitos casos isto é muito saudável e até lhe dá a sensação de ter reparado o mal que possa ter ocasionado com o seu comportamento. Mas se, pelo contrário, lhe impomos o correctivo sem que ele seja consciente de que fez algo mau, isso poderá levá-lo a não repetir o que fez, mas fará isso mais por medo do que por convicção. Além disso, corre-se o risco de gerar nele um sentimento de injustiça, fazendo que se quebre a comunicação com ele. O que seria muito prejudicial, pois então perderíamos a capacidade de o ajudar.

Forma e fundo

A regra de ouro que nunca falha é a de sermos suaves na forma e firmes no fundo. Precisamos de educar, e isto implica corrigir. Mas isso não é incompatível com o carinho, as boas maneiras e a simpatia. É acertado o dito que afirma que atrai mais uma gota de mel do que um barril de vinagre. A correcção é uma forma muito autêntica do nosso amor aos filhos e aos alunos. Não deixemos claudicar a nossa responsabilidade de educadores, mas, isso sim, façamo-lo com amor.

(Liliana Esmenjaud, Mujer Nueva – tradução para a Aldeia de Jorge N.).