Pode parecer-nos uma pergunta despropositada e sem sentido. Curiosamente, a resposta não se satisfaz com um simples: “Chamo-me José Martins Botelho, barbeiro de profissão, e para os amigos Zé Navalhas”, e acrescentar o tradicional “às suas ordens e às de Deus”. A pergunta é muito mais profunda e também não basta a saída rápida e “filosófica”: “Eu sou eu (e as minhas circunstâncias)”.

“E tu, quem és?” é uma pergunta de muita importância e transcendência. Supõe um atento exame sobre si mesmo, sobre as próprias aptidões e deficiências.

Para qualquer evento que se queira levar a cabo seriamente na vida (isto é, para as coisas que valem e que te interessam) é preciso perguntar-se a si próprio acerca dos meios de que se dispõem para conseguir o fim. Em primeiro lugar, logicamente, é preciso saber em que situação te encontras. Conhecer-te do “A” ao “Z”: as tuas reacções, os teus gostos, as tuas tendências, as tuas inclinações, o teu modo de pensar.

“Conhece-te a ti mesmo” era para os gregos da Antiguidade a máxima sabedoria, a pedra angular para a construção do homem íntegro. Verdadeiramente, quem quer que seja o autor desta máxima, escrita no templo de Delfos, acertou em cheio.

Seguindo com estes gregos de outras eras, apresento-te resumidamente o testemunho de um dos seus personagens favoritos no “cinema” do seu tempo, que era o teatro. Trata-se de Edipo.

Edipo é rei de Tebas. É quem mata a esfinge e também o homem desgraçado que mata o seu pai, partilha o leito com a sua mãe sem o saber e faz cair sobre si a sua própria maldição. O herói trágico por excelência.

No início da obra mais célebre de Sófocles, Edipo é-nos apresentado como rei e, ao mesmo tempo, pai preocupado pela peste que açoita o seu povo. Partilha a sua dor, mas não se conforma com derramar um pranto estéril. Procura os meios para encontrar a solução para os males de Tebas. Edipo é um homem coerente que consegue realizações efectivas e não se deixa apanhar na selva dos “quereria”, “gostaria de”, “preocupa-me”. O seu cunhado Creonte regressa do oráculo de Delfos com a solução: desterrar o assassino de Layo (antigo rei de Tebas e esposo de Yocasta). Mas quem era tal homem?

Depois de interrogar o adivinho Tiresias e um mensageiro de Corinto, Edipo descobre com a maior das angústias que ele é o assassino de Layo, seu pai, e que vive em trato incestuoso com a sua mãe. Quis saber a sua origem a todo o custo e pagou caro, mas chegou a conhecer-se tal como era.

Não é de estranhar que o fim de Edipo fosse trágico. Desesperado, depois de encontrar a sua esposa e mãe enforcada, priva-se voluntariamente dos olhos, cravando neles dois broches da sua veste. E semelhante desenlace leva-nos a perguntar o que é que teria sido melhor para Edipo: se ignorância feliz, ou sabedoria desgraçada. Nos nossos dias são poucos os homens que arriscam a comodidade da vida que levam para descobrirem a verdade acerca de si próprios.

A história de Edipo é um caso limite. É uma tragédia, portanto uma ficção. Mas a lição é clara: é importante conhecer-se a si mesmo. É mais perigosa uma vida de sonhos que, ao fim e ao cabo, não é mais que um engano que pode conduzir-nos a uma vida que não passa de uma existência que é uma farsa. Ele, ao conhecer-se, entrou em desespero. Mas andando o mesmo caminho até à verdade, porque não concluir com um belo final? Podemos realizar grandes coisas ao longo da nossa vida, porque saberemos quem somos, como funcionamos, quanto podemos dar. Conhecermo-nos a fundo, é o prelúdio para toda a vida que deseje viver-se em plenitude.

( Vicente D. Yanes – Jóvenes: 16 de Junho de 2003) – tradução, para a Aldeia, de Eduardo Rocha