Há um conjunto de condições que tornam mais dificil a uma pessoa atingir a felicidade, e há uma hierarquia nessas condições. Por exemplo, estar fortemente viciado em cocaína ou ser despedido são dois obstáculos a uma vida feliz. Contudo, em geral, o primeiro é muito pior que o segundo. O mesmo se passa na vida afectiva e sexual. Ser solteira e estar grávida é um sarilho. Ser mãe solteira é um sarilho ainda maior. Abortar é uma montanha de sarilhos do pior calibre e uma tragédia das grossas. A rapariga solteira e grávida ainda pode vir a ser feliz: pode casar com o namorado e pode ter uma vida normal. A mãe solteira também pode vir a ser feliz, apesar de ter grandes obstáculos a ultrapassar e de lhe ser mais difícil arranjar alguém com quem casar. Além disso tem o filho que, ao lado das canseiras e preocupações, é também fonte de muitas alegrias e óptimos momentos. A rapariga que abortou, além de mandar matar o filho, destroi a sua vida completamente e só um milagre a poderá resgatar (16). Portanto, as relações antes do casamento colocam a rapariga no sério risco de se ver grávida e de com isso comprometer seriamente todas as possibilidades de felicidade futura. No final até poderá ser feliz, mas por um caminho cujo controle lhe escapa completamente. Enquanto antes, a sua felicidade está inteiramente nas suas mãos e nas escolhas que vai fazendo, a partir do momento que engravidou o processo foge-lhe das mãos: depende da vontade que o rapaz tiver de casar (algo muito raro nos tempos que correm); se ele não casar fica à mercê do vento que lhe traga alguém interessado em casar com uma mãe solteira; e se abortar substitui o filho por uma bomba relógio que quando menos esperar vai rebentar e destruir-lhe a paz, a alegria e a vida. A curiosidade, o pensar que as relações sexuais são o próximo passo do namoro, a cedência a chantagens, o medo de perder o namorado, pensar que todas as amigas têm relações, querer provar ou testar a sua feminilidade, não querer parecer antiquada, querer provar o amor (quando há tantas outras formas e muito mais fortes como por exemplo casar-se posto que só casa quem ama), ou tentar agarrar o namorado, são tudo razões demasiado fracas quando se pensa que no outro lado da balança está posta em risco toda a felicidade futura. É óbvio que é milhões de vezes pior abortar do que dormir com o namorado. Simplesmente nunca se viu uma rapariga abortar sem antes ter dormido com o namorado. O risco de perder o controlo sobre as escolhas que lhe permitem sonhar com uma vida feliz, colocando-a à mercê de terceiros e de acontecimentos fortuitos, é um prejuízo que nenhuma relação sexual, que nenhum orgasmo por mais feérico que fosse, pode compensar.

(16). Não há possibilidade de explicar aqui porque é isto assim. O leitor interessado deverá consultar Aborto: Sim ou Não, João Araújo, Verbo, 1998.

(João Soares)