O Gabriel morreu num dia da semana passada. Saiu de casa de manhã, para o trabalho, e já não voltou. O seu coração, mesmo sendo do tamanho do mundo, falhou irremediavelmente.

Directo e discreto, como sempre, sem querer incomodar, limitando-se, quando se sentiu mal, a pedir “uma cadeirinha”, que já nem chegou a utilizar.

Quem era o Gabriel? – perguntarão.

Apenas um cidadão anónimo, um sujeito modesto, uma daquelas vidas a que as pessoas de grande e notória actividade costumam chamar de “apagadas”. Nunca, que eu saiba, o seu nome veio nos jornais. Nunca, que me lembre, foi glorificado. Fora do seu círculo restrito, entre família e a Madragoa, não serão muitos aqueles que o recordem.

E, no entanto, que vazio deixa este homem! Já sabia da sua permanente disponibilidade, da sua capacidade ao serviço dos outros. Mas foi preciso que morresse para ter consciência de que Gabriel Martins conhecia pessoalmente todos os doentes e necessitados da freguesia de Santos, a quem visitva e levava a ajuda possível. Só agora soube que convidava gente da rua para almoçar em sua casa. Só depois de ele partir percebi como nele se reuniam as qualidades das duas irmãs de que nos fala o Evangelho: tinha o sentido contemplativo de Maria e o espírito prático de Marta. Não pensava salvar o mundo; bastava-lhe cuidar do próximo.

Os meios de comunicação falam facilmente de gente que rouba, assassina, desencadeia guerras, comete atentados…

Desculparão os leitores este parêntese de hoje, ao recordar apenas esta raridade de um homem que não caberá por certo na História- porque tinha a ousadia de ser verdadeiramente bom.

Appio Sottomayor, in A Capital, 20 de Março de 2002