A liberdade permite-nos amar e odiar, ajudar e escapar, dar aos outros ou acumular para nós próprios. Somos livres para ser fiéis ao asamento ou para atraiçoar a quem nos ama de verdade. Para obedecer aos pais ou para guardar um silêncio de gelo se nos perguntarem o que fizemos ontem à noite. Para cumprir os deveres profissionais ou para roubar um pouco de dinheiro ou algum utensílio do escritório.

Talvez os jovens vivam com uma intensidade especial o mistério da liberdade. Quando somos meninos, a presença e o controlo dos pais evitam muitos caprichos e livram de muitos perigos. O adolescente, pelo contrário, sente que a vida está cada vez mais nas suas mãos. Os perigos são os mesmos, mas as pessoas mais velhas pressupõem que o jovem já está mais maduro para os enfrentar melhor. Contudo, há muitas armadilhas subtis, misteriosas, que o podem atrapalhar, que o podem destruir na sua própria liberdade.

“Sim, eu faço o que quero”, diz o adolescente. Mas logo o vemos escravo da moda. Tem que usar os sapatos que usam os seus amigos, fumar o tipo de tabaco do seu grupo, olhar para as fotografias pornográficas que correm pelas carteiras enquanto fala um professor aborrecido. A sua insegurança torna-o escravo de coisas contingentes, passageiras, por vezes prejudiciais. O drama da droga começa muitas vezes pela falta de personalidade: tudo começa como um jogo, depois como um acto de auto-afirmação no grupo, e o resto vai-se fazendo pelo desejo de prazer e pelos efeitos que a droga deixa, pouco a pouco, na mente e no coração da nova vítima.

Outras vezes o adolescente ou o jovem tem mais carácter. Face às pressões do grupo e das modas, sabe que há coisas que estão bem e outras que estão mal. Aprecia o que lhe ensinam em casa, o que lhe mandam os pais. Não quer enganá-los nem atraiçoar a confiança que lhe oferecem. Não há melhor caminho educativo que o sentir carinho e confiança perante uns pais que verdadeiramente se preocupam com o bem de cada um dos seus filhos.

A própria religião ajuda muito a crescer com maior firmeza e com parâmetros que conduzam a uma vida sã e honesta.

Há um testemunho velho, mas tremendo, de quem descobriu muito tarde quão importante é a fé para viver bem, para evitar pecados e delitos absurdos. Trata-se do testamento de um criminoso italiano, Alexandre Serenelli. Em 1905, com 20 anos, assassinou santa Maria Goretti, uma menina que ainda não tinha completado 12 anos. Depois de um longo caminho de conversão, deixou um testamento que serve para todos, mas de modo especial, para os jovens. Basta lê-lo para pensar que, inclusivamente depois dos erros mais graves, Deus é capaz de levantar um pecador e guiá-lo para o bom caminho. Mas como é difícil e triste ter feito o que se podia ter evitado com um pouco de fé e de amor!

Deixemos, pois, que nos fale Alexandre Serenelli.

“Sou um ancião de quase oitenta anos e estou pronto para partir. Dando uma olhadela ao meu passado, reconheço que na minha primeira juventude escolhi o mau caminho, o caminho do mal que me levou à ruína. Via, através da imprensa, os espectáculos e os maus exemplos que a maioria dos jovens seguem nesse mau caminho, sem reflectir. E eu fiz o mesmo sem me preocupar com nada.

Tinha perto de mim pessoas que criam e viviam a sua fé, mas não reparava nisso, cego por uma força selvagem que me arrastava para o mau caminho. Quando tinha vinte anos, cometi um crime passional, que hoje fico horrorizado só em recordar. Maria Goretti, agora uma santa, foi o anjo bom que a Providência pôs no meu caminho. Ainda tenho impressas no meu coração as suas palavras de reprovação e de perdão. Ela rezou por mim, intercedeu por mim, seu assassino.

Depois, vieram 30 anos de cárcere. Se não fosse então menor de idade, teria sido condenado a prisão perpétua. Aceitei a sentença que merecia, expiei com resignação a minha culpa. Maria [Goretti] foi realmente a minha luz e a minha protectora; com a sua ajuda, portei-me bem e tratei de viver honestamente quando fui novamente aceite entre os membros da sociedade. Os filhos de São Francisco, os capuchinhos de le Marche, receberam-me no seu mosteiro com a sua angélica caridade, não como um criado, mas como um irmão. Com eles convivo desde 1936.

Agora estou serenamente à espera de ser admitido à visão de Deus, abraçar de novo os meus entes queridos, estar junto do meu anjo protector e da sua querida mãe, Assunta.

Desejaria que os que vierem a ler estas linhas aprendessem o estupendo ensinamento de evitar o mal e de seguir sempre o bom caminho, desde a infância. Pensem que a Religião, com os seus mandamentos, não é algo que possa pôr-se de lado, mas sim o verdadeiro consolo, a única via segura em todas as circunstâncias, também nas mais dolorosas da vida. Paz e bem!”

Alexandre Serenelli, 5 de Maio de 1961

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Autor: Fernando Pascual

JOVENES, Catholic net, 13 Junho 2003, Tradução, para a Aldeia, de J. Sá Miguel