Vi recentemente um filme – “Treze: a inocência perdida” -, realizado por Catherine Hardwick, que me deixou chocado pela confusão que pode gerar em pais e jovens. O filme retrata a vida de uma família de classe média americana, mais precisamente a de uma jovem adolescente com treze anos, que vive com a mãe e o irmão mais velho, uma vez que os pais estão divorciados.

Confrontada com a crise da adolescência e com a necessidade de construir uma identidade, a jovem atravessa um período de grande solidão e abandono. Devido a ter um pai ausente e uma mãe que por sua vez é demasiado imatura, permissiva, tolerante e que não oferece o papel de uma figura vinculativa (essencial para a formação da sua personalidade) a jovem entra em desespero.

Numa tentativa de se encontrar a si própria, a protagonista do filme acaba por cair numa vida marginal: desleixando os estudos, roubando, consumindo drogas e aventurando-se numa vida sexual promíscua.

A mãe vai assistindo a este processo de decadência e destruição da própria filha, numa passividade que se confunde com tolerância e amor. Ora, é precisamente aqui que está o grande perigo! Ao não criar limites, a mãe acaba por esvaziar a sua presença e o seu próprio papel.

Os pais excessivamente bons e permissivos são tanto ou mais prejudiciais para os jovens do que aqueles demasiado severos e castradores. Isto acontece frequentemente com alguns pais, já que intoxicados, pressionados e baralhados com “algumas campanhas”, acabam por se demitir do seu papel de educadores sob um pretexto de tolerância e de modernidade.

Os nossos “jovens sem limites” aventuraram-se na droga, no álcool, nos comportamentos marginais, no sexo promíscuo (desde que uses a “borrachinha” está tudo bem!), nas corridas loucas a altas velocidades nas estradas, etc.. Não existem limites. Com esta atitude elimina-se a dicotomia do bem e do mal, do que está certo e do que está errado.

A mensagem vai passando… e chegamos ao ponto de quando alguém comete um crime, porque fez uma corrida de carros irresponsável na via pública, ouvirem-se vozes justificativas do tipo: “matou mas não tinha intenção, ele só queria divertir-se…”, ou quando alegadamente uma mãe mata uma filha num crime absurdo como aconteceu recentemente no Algarve, assistirmos na televisão um técnico de saúde mental justificar este acto horrendo com a existência de uma suposta doença mental da mãe (mesmo que nunca a tenha observado!). Haja limites! Os crimes horrendos não são obrigatoriamente perpetrados por loucos!

É errado pensar que se pode educar sem limites. Os jovens precisam desses limites e os pais têm aqui um papel fundamental. Criar limites aos filhos é uma prova de amor! Ao contrário do que ocorre com o comportamento da mãe da jovem, no referido filme, que sob o pretexto da tolerância, acaba por deixar ainda mais abandonada a sua própria filha. A ausência de limites gera confusão e leva a um “caos interior”. Por vezes é preciso dizer “não”, “basta” ou “chega”! Não se pode fazer tudo o que se quer, ou o que se deseja. Porquê? Porque a vida não é assim! Por isso, é preciso aprendê-lo desde cedo.

O Dr. João dos Santos (um dos fundadores da pedopsiquiatria em Portugal), numa conferência que dava sobre sexualidade, a determinada altura surgiu uma mãe que lhe colocou a seguinte questão: “Eu já expliquei ao meu filho tudo sobre o nascimento das crianças, e ele agora quer ver mesmo como é que os pais fazem, quer estar lá no quarto para ver como é. O que é que o Sr. fazia?, ao que o Dr. João dos Santos respondeu com simplicidade: “Olhe, minha Sra., se fosse comigo eu dava-lhe dois estalos…!”

(Pedro Afonso, psiquiatra)