Quando há um carinho autêntico – esse amor pessoal que se entrega inteiramente à outra pessoa e a aceita tal e como é, e para sempre – é lógico que esse carinho se manifeste com expressões corporais. Os beijos, as carícias, fazem parte da dinâmica natural de um amor autêntico. A questão é descobrir quando essas manifestações de amor podem converter-se em ocasião de satisfazer o simples apetite sexual, pois deixariam de ser carinho para converter-se num modo de usar o outro.
Por vezes alguns namorados pedem “medidas” concretas. Mas isso não é possível. Não se pode determinar com nitidez uma “fronteira” válida para todos e para sempre. Não se pode dizer até aqui as carícias são boas, para além disso são más, porque o sentido real das expressões de carinho dependem da educação, da sensibilidade e do momento em que se encontra cada um dos noivos.
O que se pode dizer é que é má toda a carícia que busque a excitação sexual fora da perspectiva do acto sexual dentro do matrimónio. Porque as carícias devem ser sempre e só expressão de amor autêntico. A excitação sexual é expressão de carinho quando marido e mulher se preparam para “fazer amor”. Fora desse caso, converte-se em simples fonte de prazer carnal, não sabe a amor porque não o é. É usar, não amar.
Por isso, quando as carícias são simples expressão da fome de prazer, são más. Inclusive quando se realizam entre marido e mulher. No casal, a excitação pode ser parte integrante e boa do amor pleno e, neste sentido, não se justifica o medo que alguns têm do prazer, Mas a excitação há-de ser fruto do carinho e exprimir carinho. E a experiência indica que, por vezes, o outro não se sente amado mas usado. O matrimónio não é uma licença para o mal, é formalizar e assumir, como reflexo da vontade, o amor e a entrega. E cada carícia dentro do matrimónio tem de ser carinho e entrega. Se não é assim, é mau, porque é simplesmente usarem-se, não amarem-se.
Por isso, há dias em que marido e mulher se vêem obrigados a tratarem-se com precaução, porque sabem que não vão “fazer amor” e que as manifestações lógicas de carinho podem desencadear um processo de excitação que só é e se saboreia como amor quando se realiza o acto conjugal. E também por isso, o marido, de modo habitual, ao desejar fisicamente a mulher, deve esforçar-se por desejá-la como ela necessita de ser desejada, adaptando-se ao seu ritmo e à sua sensibilidade, que são diferentes dos seus, dando-lhe a ternura e a tranquilidade que ela necessita para sentir-se amada, não simplesmente usada.
Muitos noivos sabem que um beijo, que num dia é expressão de carinho, noutro dia pode não ser inocente. Porque isso depende de como está o corpo nesse dia. Hoje, o dobro é bom, amanhã, a metade é má, porque onde ontem havia carinho limpo, hoje mete-se a dinâmica da excitação e é preciso cortar, porque não se pode evitar a reacção do corpo que segue o seu egoísmo carnal. E, por vezes, haverá que ter cuidado, porque se não, as coisas irão mal. O carinho autêntico, se é realista, leva a ser sóbrio nas suas manifestações, porque conhece as próprias limitações e sabe que com o outro se pode passar o mesmo. E se se ama outra pessoa, procura-se evitar os maus momentos e as situações em que tenha de passar pela tentação de prostituir o seu amor.

(Mikel Gotzon Santamaría Garai, in Saber Amar com o Corpo)