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Na feira medieval

 

Na escola organizámos uma feira medieval. De vez em quando, numa escola ou noutra, fazem-se coisas assim.

Foram alguns meses de preparação. É preciso fazer ou conseguir roupas como as que se usavam naquela época, obter apoios, organizar actividades. Os alunos prepararam poemas e danças, aprenderam músicas para tocar com flauta. Entusiasmaram-se.

Quando chegou o dia previsto, fomos em cortejo da escola até ao castelo, onde decorreriam as actividades.

Fui vestido de Robin dos Bosques. E nesses preparos atravessei as ruas onde costumo passar com a minha pasta e o meu aspecto de professor.

Sobrevivi...

Não tenho jeito para dar espectáculo, sou envergonhado, não gosto de ter muita gente a olhar para mim e estou mais à vontade dentro das roupas do tempo em que vim ao mundo.

Tenho sobrevivido sempre. Uma vez, há anos, consegui também resistir a um desfile escolar de Carnaval...

É claro que hoje mudei de roupa antes de vir escrever isto.

Mas, se não vejo nenhuma razão para estar neste momento vestido de Robin dos Bosques diante do computador, a verdade é que nesta feira medieval fortaleci a minha convicção de que senhoras e raparigas perdem muito em não se vestirem como nessas épocas antigas.

Esta tarde, colegas e alunas estavam transfiguradas. Envergando aqueles vestidos medievais bonitos, largos e compridos, não pareciam as mesmas. Tinham um ar encantador que sugeria qualquer coisa como flor e mistério. Pareciam orgulhosas e contentes. Tinham um brilho maior no olhar e a dimensão de rainhas.

Era como se transpirassem música.

O que senti não foi que estivessem disfarçadas, como sucedeu no tal desfile de Carnaval. Não foi isso. Foi uma coisa bem diferente.

No Carnaval pareciam ser o que não eram, disfarçadas de galinha, cereja ou bruxa; aqui, na feira medieval, era como se se parecessem mais com elas próprias.

Descobri-as. Revelaram-se. Que bonitas são, afinal!

Não é apenas minha esta forma de ver: mesmo hoje, no momento supremo do casamento, a mulher usa um vestido. As lojas vendem vestidos de noiva, e não calças de noiva ou camisolas de noiva.

Actualmente seria fácil fazer vestidos deste género. Melhores, mais práticos, mais ao alcance de todas as pessoas e de uma utilização frequente.

A mulher, naturalmente, gosta de ser apreciada como pessoa. Quanta desilusão e amargura quando percebe que foi tratada como objecto de usar e deitar fora! E um vestido assim, comprido e largo e bonito, facilita muito que a considerem como pessoa. Porque, ao contrário de muitas indumentárias modernas, evita que, ao olhar para ela, a atenção seja brutalmente chamada para o seu corpo, de onde dificilmente sairá mesmo que passem muitos anos. Permite que se possa fixar mais nas características da sua personalidade, na sua feminilidade, no seu carácter, nas suas virtudes.

Nos nossos tempos os meios de comunicação impuseram uma moda em que a beleza das mulheres ficou reduzida a pouco mais do que a das suas formas corporais. O que condenou muitas delas a "serem" feias... e levou muitas outras a inauditos sacrifícios que as levassem a aproximar-se dos padrões "modernos" de beleza.

O vestido ajuda a ver que todas, afinal, são encantadoras. Liberta a beleza; não a esconde.

 

Paulo Geraldo

«A educação faz com que as pessoas sejam fáceis de guiar, mas difíceis de arrastar; fáceis de governar, mas impossíveis de escravizar.» (Henry Peter)