O prazer máximo da relação sexual exige uma relação sexual de qualidade máxima. Para ilustrar com os casos extremos, a relação sexual com uma prostituta não tem a qualidade de uma relação de fidelidade, aberta à vida, com a companheira de e para sempre (4). E a relação de qualidade máxima só pode ser atingida no amor. Ora o amor não é um sentimento ( “fogo que arde sem se ver”): amor é entrega, é doação total, se for preciso até à morte. Esta doação plena supõe a entrega dos sentidos, dos pensamentos, da memória, da inteligência e do tempo: todo o passado e todo o futuro. Se os namorados tivessem decidido já esta doação total mútua, seriam casados, e não se percebe porque não o assumem perante a sociedade. Mas a verdade é que, por norma, a relação sexual entre namorados está longe -muito longe!-dessa doação total, e é por isso que não o assumem (5).

(4). Como é evidente a relação aberta à vida tem o seu quê de loucura, mas uma loucura boa, de amor, que portanto fica a anos luz da relação que visa exclusivamente atingir um orgasmo num momento.

(5). Habitualmente os jovens aceitam que entender o amor como entrega total é um caminho muito mais certo para a felicidade do que entendê-lo como uma mistura de sentimenos, gostos e prazeres. Contudo, insistem que as relações pré-matrimoniais já são doação total, mas daquilo que se pode dar na altura: Os casados podem dar mais do que os namorados: o que conta é que cada um dê tudo o que pode na circunstância em que está. Esta objecção é repetida mil e uma vezes pelos jovens, mas de facto não tem fundamento. Imaginemos uma pessoa que dá cinco escudos a um pobre. Será que as carências do pobre vão ficar resolvidas pelo facto daquele ser todo o dinheiro que na altura a pessoa tinha no bolso? No amor não se quer nem todo o dinheiro do bolso nem todos os bens da pessoa (a pessoa que dá tudo pode ser generosa, talvez heroicamente generosa, mas generosa somente) porque nada disso bastaria. No amor a pessoa dá-se a si própria, totalmente, para sempre. A companhia, a genitalidade, o prazer, são as moedas do bolso. Não são doação total, não são amor. O pobre poderia dizer: se o senhor deseja sinceramente acudir-me nesta necessidade, então dê-me dinheiro quando tiver o suficiente: tudo o mais são desculpas e mentira. Seguramente, no amor vale isto mesmo: se verdadeiramente me queres, então espera até que te possas doar totalmente. Tudo o mais são desculpas e mentira.

(João Soares)