O facto, bastante frequente, de que a amizade íntima entre dois jovens de sexo diferente rapidamente desemboque no namoro não representa um problema sério em certos casos, mas noutros sim. Não é preocupante (ao menos em princípio) que a partir de certa idade e de certo nível de maturidade pessoal a amizade se converta inesperadamente em namoro. Mas há um problema importante, pelo contrário, quando não se dão essas duas condições, idade e maturidade: neste caso, estamos diante de um namoro prematuro.

É prematuro um namoro quando os jovens não sabem situar a atração física dentro da dimensão total da pessoa, isto é, quando não são capazes de sujeitar o instinto às exigências de um amor que compromete todo o ser, corpo e alma. Nesta situação de imaturidade, existe um forte risco de chegarem às mal chamadas “relações pré-matrimoniais”, isto é, à relação carnal entre os namorados. Não pretendo afirmar, porém, que o namoro prematuro seja a única nem a principal causa dessa anomalia.

É difícil estabelecer uma idade a partir da qual o namoro já não é prematuro. Dois jovens com a mesma idade podem ter graus diversos de maturidade quanto à amizade e ao amor. De qualquer maneira, pode-se dizer, a título de orientação geral, que são prematuros os namoros antes da idade juvenil, isto é, durante a fase adolescente. Concretizando um pouco mais, sou da opinião de que não se deveria iniciar um namoro sério antes dos dezoito anos nas raparigas e dos dezanove nos rapazes.

Não se chega a um namoro prematuro apenas por meio de uma amizade íntima que desemboca inesperadamente no amor. Isso pode ser também consequência de um desses “namoricos” tão comuns na adolescência média a que já aludimos.

O namoro prematuro é a pretensão de amar antes do tempo. É buscar satisfação para o desejo sexual quando o eros, o amor espiritual, ainda não se desenvolveu, e falta a harmónica fusão entre os dois elementos do amor. Essas experiências precipitadas não desenvolvem a capacidade de amar, não constituem uma preparação para o verdadeiro amor. Antes pelo contrário, atrasam ainda mais o seu amadurecimento: “O desenvolvimento prematuro da sexualidade impede o desenvolvimento do eros. É como uma árvore em que as raízes se desenvolvessem demasiado e absorvessem toda a seiva, impedindo o crescimento da copa. Nesses casos, a aspiração pelos valores, a força idealizadora da alma, a nostalgia do que há de mais nobre e alto, tudo fica sufocado na sua própria origem. O desenvolvimento psico-espiritual atrofia-se” [65].

Essas aproximações prematuras entre adolescentes de sexo diferente algumas vezes são “brincar de amor”, outras “brincar com o amor”. Nessas idades, sobra instintividade e falta vontade para governar os próprios impulsos. Por isso, o “primeiro amor” não costuma ser autêntico nem verdadeiro, antes expressa frequentemente um egoísmo dissimulado, na medida em que se quer o outro apenas pelas satisfações que proporciona.

Já que na época actual um homem normalmente não tem o seu futuro assegurado antes dos 25 anos (e, às vezes, aos trinta ainda não o tem), um namoro que começa na adolescência está “condenado”, em princípio, a ser excessivamente longo. Nessas condições, costuma perder o entusiasmo e o vigor inicial. Além disso, apresentam-se situações moralmente muito perigosas pela frequência com que os namorados se expõem a situações amorosas. Se não estiverem em condições de casar-se num prazo relativamente curto ou, pelo menos, razoável, o namoro tende a converter-se numa espécie de beco sem saída que prejudica o equilíbrio dos dois jovens.

A perda crescente do entusiasmo explica por que os amores prematuros só raramente conduzem ao casamento. E, mesmo quando desembocam no casamento, os riscos não costumam ser menores. À imaturidade inicial deve acrescentar-se então a falta de conhecimento mútuo entre os jovens e a insuficiente reflexão sobre o seu futuro estado de vida. É significativo que a maioria dos divórcios ocorra precisamente entre casais muito jovens, como fruto de namoros prematuros [66]. O que vem a demonstrar que inúmeros problemas conjugais já estavam em germe no amor imaturo da etapa adolescente ou juvenil.

Adolescentes e jovens devem saber a tempo que “o namoro – entendido como caminho para o matrimónio e não como simples entretenimento – é algo muito belo, mas também muito sério […]. Exige realismo e a disposição de descobrir a verdade por trás das aparências, de adivinhar o que significará viver juntamente com a outra pessoa mais tarde” [67].

É comum que nesses namoros prematuros ocorram “relações pré-matrimoniais”, como conseqüência da mencionada imaturidade dos adolescentes para enfrentar a realidade do amor. Mas esta não é a única causa de um fenómeno que se estende hoje de modo progressivo entre jovens de todos os meios sociais. São muito numerosos, por exemplo, os casais de namorados que recorrem aos médicos à procura de meios para controlar a natalidade [68].

Entre as diversas causas deste grave problema devemos citar, em primeiro lugar, a permissividade de certos pais (muitas vezes ingénua, mas nem por isso menos culpável) quanto aos costumes dos seus filhos. Um exemplo frequente são os acampamentos e excursões de fim de semana ou de férias mistos, em que os adolescentes de ambos os sexos se encontram em situações que predispõem para o contacto físico e para a exploração sexual.

Em segundo lugar, é preciso mencionar com destaque a pornografia difundida pelos meios de comunicação. Difundem-se diariamente imagens eróticas de todo o tipo, numa sociedade que parece literalmente obcecada pelo sexual. A literatura, o cinema, a televisão, as revistas, o teatro, a música, tudo estimula os adolescentes e os jovens a dar livre curso a tendências que por si só não são nada fáceis de governar na idade em que se encontram.

A sociedade vem, pois, convertendo inúmeros adolescentes em adultos prematuros no aspecto sexual, sem fazer nada por ajudá-los a descobrir o aspecto afectivo e espiritual do amor humano: “Em vez dos ritos tradicionais de encontro entre rapazes e raparigas, em que surgia toda uma delicada sensibilidade para com o outro […], hoje apenas encontramos nos adolescentes a impaciência por imitar os adultos, por amar como eles, por ir mais longe, arrastados por uma curiosidade nunca satisfeita, por ir mais rápido, por queimar etapas” [69].

Uma terceira causa do problema das relações pré-matrimoniais é a difusão dos métodos contraceptivos. Para os jovens sem convicções morais e religiosas, o medo da gravidez era o único freio, mas a descoberta da pílula “libertou-os” desse obstáculo. A impunidade que a “pílula” oferece incide seriamente tanto nos rapazes como nas raparigas, e nestas, concretamente, tem violentado a inclinação menos intensa da psicologia feminina para a dimensão sexual do amor. Hoje em dia, tomam a pílula “a moça que deseja viver o êxtase da experiência sexual; aquela que vê na entrega do seu corpo o meio de conquistar determinado rapaz; aquela que busca a segurança de sentir-se desejada; aquela que acredita na “prova de amor” que lhe pede o jovem com quem pensa casar-se; e, igualmente, aquela que apenas deseja escapar de um cotidiano entediante” [70].

Mas a causa mais importante desse problema é a mesma que está por trás da permissividade actual: trata-se das correntes ideológicas que exageraram o papel dos instintos na vida humana, menosprezando simultaneamente a condição racional do homem e a dimensão espiritual da pessoa. Sob esta perspectiva errónea e interesseira, “chegou-se com excessiva rapidez e leviandade à conclusão de que o instinto deve ser “libertado” e de que somente a satisfação é capaz de trazer o equilíbrio e a felicidade. A sexualidade transformou-se num “jogo” e o amor numa “paixão” ” [71].

À base desta filosofia barata, manipulam-se os adolescentes com dois “argumentos” principais:

1. É preciso conhecerem-se melhor um ao outro antes de se casarem, e para isso precisam ganhar “experiência”; e

2. Por que esperar, se existe um verdadeiro amor?

É preciso esclarecer aos adolescentes e aos seus pais que as relações sexuais pré-matrimoniais não trazem nenhum tipo de “experiência conjugal”. Essas “experiências” não têm praticamente nada em comum com o que será a futura vida de casados, que não se reduz de forma alguma a “fazer amor”. Além disso, o amor físico dentro do casamento é uma expressão do amor conjugal generoso e sacrificado, nem de longe uma mera satisfação egocêntrica do instinto.

Como as circunstâncias e a finalidade de uma situação e da outra são muito diferentes, as experiências sexuais fora do casamento trazem consigo – entre outros – o perigo de levar os namorados a conclusões falsas. Esse tipo de “experiência” não os ajuda a ganhar conhecimento mútuo; antes pelo contrário, a obsessão pelas relações sexuais que os domina nessas circunstâncias é um sério obstáculo para descobrirem o outro como pessoa.

Quando há verdadeiro amor e não um simples desejo egoísta de prazer, sabe-se esperar o momento adequado para expressá-lo através da relação sexual. O respeito mútuo durante o namoro prepara a futura vida de casados, já que os esposos são muito mais que um macho e uma fêmea que se entregam fisicamente um ao outro. É esse respeito entre os namorados que os predispõe positivamente para o conhecimento completo e a mútua entrega que virá mais tarde. Aqueles que, pelo contrário, já obtêm antes do casamento o que só deveriam encontrar depois, perderão todo o entusiasmo por chegarem às bodas que, na sua visão deformada, já nada de novo lhes podem oferecer.

O namoro perde todo o seu sentido quando se transforma num grosseiro ensaio da vida conjugal. Deve-se esclarecer aos jovens que “o namoro é um período em que se promete tudo, mas não se dá tudo. É um período em que a promessa de amor amadurece gradativamente. Se alguém dá tudo ou toma tudo num contexto que não é definitivo, busca algo que supera a condição presente, que é a de os namorados se conhecerem e saberem respeitar-se mutuamente. E sofrerá, mais cedo ou mais tarde, as conseqüências de ter lesado o amor” [72].

Chamar a essas relações sexuais – que deformam completamente a idéia correcta do amor e do casamento – “relações pré-matrimoniais” ou “experiência pré-matrimonial” não passa de uma ironia. É mais um exemplo dessa manipulação da linguagem típica das ideologias totalitárias do nosso tempo.

 

(Gerardo Castillo)

 

[64] Allaer e Carnois, La adolescencia.

[65] M. Remplein, Tratado de psicologia evolutiva.

[66] Cfr. L. Riesgo, Relaciones entre jóvenes, em Diálogo Família-Colégio, n. 72, pág. 13.

[67] Ibid., pág. 11.

[68] Cfr. L. Riesgo e C. Pablos, Relaciones prematrimoniales, em Diálogo Familia-Colegio, n. 90, pág. 28.

[69] F. Goust, Encuentro con el amor, pág. 23.

[70] L. Riesgo e C. Pablos, Relaciones prematrimoniales, pág. 29. (71) F. Goust, Encuentro con el amor, pág. 24.

[71] F. Goust, Encuentro com el amor, pág. 24

[72] L. Riesgo e C. Pablos, Relaciones prematrimoniales, pág. 32.

Fonte: livro “Educar para a amizade”, Gerardo Castillo, Quadrante, São Paulo, 1999. Amizade e amor entre adolescentes – pp. 192-200

(Retirado de Portal da Família )