Narciso, antes de ser uma personagem da mitologia grega, era simplesmente um rapaz escorreito, não se pode negar; tinha uma cara de príncipe de conto de fadas, usava o cabelo comprido ou curto conforme a ocasião, vestia com gosto e maquilhava-se só com produtos naturais, absolutamente naturais.

Numa terça-feira (ou quinta. tanto dá) acabava de dispor-se para sair, talvez para ir ao teatro (porque ainda não se tinha inventado o cinema) ou talvez a uma festa. Tinha revitalizado os seus lábios com cereja vermelha, branqueado o seu rosto e penteado o seu cabelo. Viu-se ao espelho (o reflexo da água num lago, pois tudo era natural) e contemplou-se com satisfação e disse para si mesmo: “sou mesmo perfeito”.

Então Zeus, o deus grego, reparando com quanto deleite Narciso contemplava a sua própria figura, infundiu-lhe um amor desmedido pelo seu próprio eu. Narciso enamorou-se perdidamente por si mesmo. E quis alcançar a sua imagem atirando-se ao tanque, onde morreu infeliz por não se poder possuir.

Esta história da mitologia grega, parece-se com a história dos rapazes que gastam tardes inteiras no ginásio a contemplar os seus bíceps ou das raparigas que não se poupam jornadas esgotantes de ginástica rítmica. “Sou mesmo perfeito” ouvimo-los pensar quando nos salões se põem diante dos espelhos depois de “treinarem”, olhando, por diante ou atrás o abdómen dividido em quatro ou seis rectângulos, os músculos dorsais, fazem força para perfilar melhor os bíceps, os peitorais, etc.

Se fores a um ginásio podes ver que sempre há um salão com espelhos onde certamente haverá “teens” e não tão “teens” a avaliar a musculatura dos seus corpos. “Com o suor cutâneo a silhueta dos músculos fica mais definida …”, é o que dirão.

Mas narciso não só é o rapaz ou a rapariga que vivem para a figura do seu corpo: há alguns mais refinados, desde os que transmutam o rosto com cosméticos, até aos que além de dietas, roupas e modas, se penteiam com métodos sofisticadíssimos.

A Narciso a morte apanhou-o num tanque. E eu pergunto-me, onde é que a morte apanha os narcisos de hoje, que consomem a sua vida no culto idólatra da sua figura; a sobredosse, excesso de hormonas, e eis os que ficam “tesos” com a cirurgia plástica , etc. “Não, eu só faço exercício” diz algum rapaz frequentador do ginásio …

Viver para o corpo é como morte em vida, pois não vives para ti mesmo nem para os outros, mas para a figura do teu corpo. Sem necessidade de falar da doutrina católica e de que o culto do corpo constitui uma forma de idolatria, um elementar sentido humano adverte-nos contra essas formas de perversão.

O meu corpo não me pertence porque não é uma coisa que se possua, também o meu corpo é a minha casa, como dizia a propaganda sem bases filosóficas. O meu corpo é parte da minha humanidade: sou eu mesmo com a minha alma numa união indivisível.

Ao dar atenção desmedida ao meu corpo, em certo sentido estou a tratá-lo como um objecto que possuo. E não é que não deva atender o meu corpo, dizendo melhor, cuidar e atender-me a mim mesmo e por isso mesmo, como parte inseparável do meu ser, aplicar-me ao cuidado do meu corpo. O ginásio e os aerobics são bons: são saúde. Mas não são um fim em si mesmo.

Da próxima vez que fores ao ginásio, procura não olhar-te ao espelho. Faz exercício físico que te ajude a manter a mente desempoeirada e o espírito aberto. Como dizia o sábio pensamento latino: Orandum ut sit, mens sana in corpore sano; quer dizer, “há que fazer oração para ter uma mente sã num corpo são”.

Não esqueças a sentença completa porque o homem é uma unidade de espírito e corpo. E o homem não terá são o quinto andar, se o seu espírito e o seu corpo carecem de harmonia; quer dizer, se não está em paz com Deus, com os outros e consigo mesmo: Orandum ut sit, mens sana in corpore sano.

Jóvenes: 9 de Abril de 2003 Autor: Ignacio Plascencia. Tradução para a Aldeia de E. Rocha