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Nenhuma flor

 

Hoje trago uma dessas histórias simples e luminosas que devíamos ler mais vezes. Contaram-ma e gostei dela. Não sei quem é o autor, mas espero que não se importem e que a apreciem.

***

Há muito, muito tempo, um príncipe de um grande país, em vésperas de ser coroado imperador, precisava, para cumprir a lei, de se casar.

Resolveu, então, escolher uma entre todas as raparigas da corte e do país. Fez, pois, anunciar que receberia numa celebração especial todas as pretendentes e que nessa altura lançaria um desafio.

Uma mulher, serva do palácio havia muitos anos, ouviu comentários acerca dos preparativos da festa e deixou cair uma lágrima. Conhecia bem o amor que a sua filha tinha pelo príncipe.

Quando, em casa, contou à filha a novidade, surpreendeu-se com a reacção.

– Minha filha querida, que vais lá fazer? Estarão presentes as mais belas e ricas raparigas da corte. Não transformes o teu sofrimento em loucura.

Mas a filha respondeu:

– Não, mãe, não sofro nem estou louca. Sei que jamais poderei ser a escolhida, mas assim terei oportunidade de ficar, pelo menos alguns momentos, perto do príncipe. E isso já me torna feliz.

Na noite marcada, chegou ao palácio. O brilho das luzes não conseguia ofuscar os vestidos, as jóias e os penteados das pretendentes.

O príncipe não demorou a lançar o desafio:

– Darei a cada uma de vós uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor será minha esposa e a futura imperatriz.

O tempo passou. A nossa menina não tinha muita habilidade na arte da jardinagem, mas cuidava da sua semente com paciência e ternura. Sabia que, se a beleza da flor surgisse na mesma medida do seu amor, não precisaria de se preocupar com o resultado.

Mas passaram três meses e nada surgiu; seis meses, e a semente não se transformou em flor...

Mesmo assim a rapariga voltou ao palácio no dia combinado. Estava feliz com a perspectiva de passar mais alguns instantes na companhia do príncipe. Nada mais esperava. Chegou ao palácio com o vaso vazio...

Todas as outras raparigas apareceram com flores belíssimas, das mais variadas formas, cores e cheiros. O palácio transformara-se num imenso jardim.

Chegou finalmente o momento esperado. O príncipe passou junto de todas as pretendentes, observando com muito cuidado todas as flores. Quem o conhecia bem notou-lhe no olhar uma sombra de divertimento.

Por fim, anunciou que a sua futura esposa seria... a menina que não trazia flor.

Ora, isto provocou as mais variadas reacções de espanto. Por isso, o príncipe quis explicar a sua escolha:

– Esta menina foi a única que cultivou a flor que torna uma pessoa digna de se tornar imperatriz: a flor da honestidade. Porque todas as sementes que entreguei eram estéreis...

 

Paulo Geraldo

 

«A educação faz com que as pessoas sejam fáceis de guiar, mas difíceis de arrastar; fáceis de governar, mas impossíveis de escravizar.» (Henry Peter)