“Procurava o prazer, e acabava por o encontrar – conta C. S. Lewis na sua autobiografia – mas depois descobri que o prazer (esse ou qualquer outro) não era aquilo que procurava. E pensava que me estava a enganar, embora não fosse, evidentemente, por questões de ordem moral. Naquela época eu era, neste domínio, o mais imoral que alguém pode ser.”

“A frustração também não consistia em ter encontrado um prazer rasteiro em vez de um elevado.”

“Era o pouco valor da conclusão aquilo que estragava a festa. Os cães tinham perdido o rasto. Tinha capturado a presa errada. Oferecer prazer sexual a quem deseja algo mais elevado, é o mesmo que oferecer uma costeleta de cordeiro a quem morre de sede.”

“Não é que me tivesse afastado da experiência erótica dizendo: isso não! Os meus sentimentos eram: isto está bem! Mas não será que me desviei do verdadeiro objectivo?”

“O verdadeiro desejo desaparecia como que dizendo: Que tem isto a ver comigo?”

Assim descreve C. S. Lewis os seus erros e vacilações no caminho da procura da felicidade. A via do prazer resultara infrutífera. Durante anos seguira uma pista errada. “Ao concluir um templo para o deus do prazer descobri que ele se tinha ido embora.”

A sedução do prazer
enquanto dura,
tende a ocupar todo o espaço
na nossa mente.
Nesses momentos, promete tudo,
como se fosse
o mais importante.

No entanto, depois de ceder a essa sedução descobrimos o logro. Constatamos que não saciou como prometia, que nos voltou a iludir, que oferecia mais do que deu. Andámos próximo do rasto mas voltámos a perdê-lo.

Basta recordar a Literatura Clássica para verificar que essa ansiosa procura do prazer sexual nada tem de original. Na História de povos muito antigos verifica-se que eles próprios esgotaram, na prática, as suas possibilidades neste campo sem terem alcançado resultados muito diferentes. A atracção sexual é indiscutível, certamente, mas o repertório esgota-se cedo por muito que se altere o cenário

Prazer e Felicidade

Existem, claramente, notas distintivas entre o prazer e a felicidade:
A felicidade tem vocação de permanência; o prazer não.
O prazer costuma ser fugaz; a felicidade é duradoura.
O prazer afecta um pequeno sector da nossa corporalidade; a felicidade afecta toda a pessoa.
O prazer esgota-se em si mesmo e acaba criando um hábito que faz com que as circunstâncias reduzam ainda mais a própria liberdade. A felicidade não.
Os prazeres, por si só, não garantem qualquer felicidade; necessitam de um fio que os una e lhes dê sentido.

As satisfações
momentâneas e invertebradas
desorganizam a vida,
fragmentam-na
e acabam por atomizá-la.

Quevedo insistia na importância de tratar o corpo “não como quem vive por ele – que é atitude de néscio – nem como quem vive para ele – que é delito -; mas como quem não pode viver sem ele. Sustenta-o, veste-o e manda nele, porque seria muito feio que mandasse em ti quem nasceu para te servir.”

Por sua vez, Aristóteles, assegurava que, para fazer o bem, era necessário manter longe as paixões inadequadas ou extemporâneas, visto que, as grandes vitórias morais não se improvisam, antes são fruto de uma multidão de pequenos êxitos obtidos nos pormenores do quotidiano.

A felicidade apresenta-se perante nós
com leis próprias
com essa teimosia serena
com que apresenta,
uma e outra vez,
a inquebrantável realidade.

Existe o Prazer?

O prazer e a dor têm um inegável protagonismo na vida de qualquer pessoa, condicionando, de alguma forma, as suas decisões.

Mas nem o prazer nem a dor são maus ou bons por si mesmos.
Efectivamente. Mau é deixar-se vencer pelo prazer ou pela dor.

Mau é agir mal
para desfrutar um prazer ou
evitar uma dor.

Pode-se sentir prazer sem se ser feliz e ser-se feliz no meio da dor. Daí a necessidade – afirmava-o Platão – de se ser educado desde cedo para saber quando e como convém sofrer ou desfrutar, porque, da mesma forma que existem acções nobres e acções indignas, se pode dizer que existem prazeres nobres e prazeres indignos. A adequação da conduta a este critério é objecto da educação moral.

O Preço da Renúncia

Muitas são as coisas que o homem deseja, e para alcançar algumas delas tem de renunciar a outras, mesmo que essa renúncia lhe doa. Dizia Aristóteles que não há nada que nos seja sempre agradável.

Qualquer escolha traz consigo uma exclusão. Por isso é importante acertar quando se escolhe, sem excessivo medo à renúncia, uma vez que nem sempre por detrás de qualquer atractivo está a felicidade. Tanto o prazer como a felicidade andam sempre associados à renúncia.

Também a solução não está na supressão de qualquer desejo, porque sem desejos a vida do homem deixaria de ser propriamente humana.. O homem humaniza-se quando aprende a suportar a adversidade, a abster-se daquilo que se pode mas não se deve fazer. Este é o preço que deve pagar a nossa inexorável tendência para a felicidade se quisermos alcançar aquilo que ela nos pode dar nesta vida

Sensato é
deixar-se conduzir pela razão
para não se assustar perante a dor
nem se deixar enganar pelo prazer.

Da mesma forma que preservar a saúde exige um certo esforço, mas é graças a ele que nos sentimos bem, a castidade fortalece o íntimo do homem, proporcionando-lhe uma profunda satisfação. Quando não se cede ao egoísmo sexual alcança-se uma maior maturidade no amor, no qual a castidade sublima a intensidade dos sentimentos. Surge uma transparência luminosa no olhar e uma alegria radiante no rosto que conferem um atractivo especial.

– E não existem demasiadas proibições na ética sexual?

Até aqui não falámos de proibições, mas sim de um modelo e de um estilo de vida positivo.

No entanto, embora a chave da ética não sejam as proibições, não podemos esquecer que qualquer ética pressupõe mandamentos e proibições. Cada proibição guarda e assegura determinados valores, que dessa forma são protegidos e se tornam mais acessíveis.

Essas proibições, se são acertadas, dilatam os espaços de liberdade de valores importantes para o homem. A moral não pode ser vista como uma simples e fria normativa que coarcta; e muito menos como um código de pecados e obrigações.

As exigências da moral
dão vigor à pessoa, impelem-na
para o seu pleno desenvolvimento,
para a sua mais autêntica liberdade

(Alfonso Aguilló) – Tradução, para a Aldeia, de António Faure