O homem, para se realizar, deve procurar um sentido para a sua vida fora de si próprio. Eis um diagnóstico do psiquiatra Viktor Frankl, feito numa conferência realizada na Universidade Gabriela Mistral, em Santiago do Chile, em Junho de 1991:

Todo o ser humano se está constantemente projectando em qualquer coisa que existe fora de si próprio, alguma coisa que existe no mundo exterior, ou em alguém que está nesse mundo, uma pessoa, um ser amado, a quem entregue o seu amor. Intrínseca e basicamente é isso que ele procura no mundo exterior. Na medida em que um ser humano, em vez de se autocontemplar e reflectir sobre si próprio, deseja colocar-se ao serviço de uma causa superior a ele ou amar outra pessoa, acaba por se encontrar com a autotranscendência que, a meu ver, é uma qualidade essencial da existência humana.

Tudo isto tem também uma dimensão biológica. Isto não é nada complicado e, com um exemplo, perceber-se-á muito melhor: Os nossos olhos são, de certo modo, autotranscendentes. Quando é que o sentido da visito funciona normalmente? Quando cumpre a sua própria missão, que consiste em compreender visualmente o que sucede no mundo. Ironicamente, só pode cumprir a sua função na medida em que não se veja a si próprio. Em que momento os olhos se apercebem de si próprios?. Só quando estão doentes. Se tenho cataratas, estou dando conta de alguma coisa na minha própria vista; ou se existir alguma tensão em determinada região da vista, sintoma de um glaucoma, vejo as cores do arco-íris à volta das luzes. Uns olhos normais não se apercebem de nada de si próprios.

O mesmo acontece com o ser humano. A autotranscendência é um traço essencial da existência humana. A auto-realização é boa, mas só se pode obter como efeito secundário, como subproduto. Não se pode procurar directamente. Deve chegar até nós não pelo muito que a tenhamos procurado.

Quanto maior for a nossa possibilidade de conhecer o sentido da nossa vida, maior será a nossa auto-realização, como efeito secundário ou subproduto, sem que por ela exista qualquer preocupação. Foi Abraham Maslow quem primeiro deu este conceito de auto-realização, assinalando concretamente que não é possível correr em sua perseguição. A melhor forma de conseguir a realização pessoal consiste na dedicação a metas desinteressadas. Na declaração inicial da Constituição dos Estados Unidos fala-se da busca da felicidade: todos têm direito a procurar a felicidade. Permitam-me que lhes diga que para mim a busca da felicidade constitui urna contradição em si mesma, uma vez que é algo que não se pode perseguir. A felicidade tem de ser a consequência de uma boa acção ou de uma relação amorosa satisfatória. Se alguém exerce a sua profissão, faz o seu trabalho, ou presta assistência à sua família, está a realizar-se sem se preocupar com a sua auto-realização. Por outras palavras, não é possível ter como metas o prazer, a felicidade ou a auto-realização. Paradoxalmente, logo que se estabelecem como fins, afastam-se.

Inicialmente, o homem nunca luta pelo prazer ou pelo poder, mas por um sentido determinado. Quando alcança esse sentido, como por exemplo a dedicação amorosa a outro ser humano, o prazer produz-se como efeito.

Contudo, há pessoas que não podem encontrar um sentido no seu íntimo e por isso nunca encontrarão o prazer. Essas pessoas buscam o prazer directamente, porque se frustraram no seu desejo de encontrar o seu sentido de vida. Ora bem, procurar esse caminho directo é contraproducente e vai dar sempre a um beco sem saída. Este é um fenómeno que com certeza já todos observámos de uma forma ou doutra, e por isso sabemos que é importante. É a verdadeira causa de muitas neuroses.

A mesma coisa acontece com o poder. Assim como o prazer é um efeito secundário ao encontrarmos um sentido, o poder é um meio para alcançar um fim. Quando uma pessoa carece de sentido, fixa-se normalmente nos meios, isto é, no poder. Por outras palavras: tanto a vontade de poder, descrita por Adler, como o desejo de prazer, de acordo com o princípio freudiano do prazer, são o resultado de uma frustração inicial do desejo original de encontrar um sentido ou, se quisermos, uma finalidade para a nossa existência.

In FOCO N.º 45