Por vezes tendemos a ser irrealistas, e isso traz-nos prejuízos que nem sempre são pequenos. Devíamos tomar, de vez em quando, um “banho de realidade”…

É bom, sem dúvida, sonharmos e corrermos depois atrás desses sonhos. Já foi dito que essa é a forma de o mundo avançar. Disseram-no os nossos poetas, de modo exemplar: “… sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança (António Gedeão); ou “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (na Mensagem, de Fernando Pessoa).

Mas há coisas que não é possível mudar, porque vêm amarradas à nossa condição humana ou fazem parte das características próprias da vida. E é muito perigoso que – de modo irrealista – façamos depender a nossa alegria, a nossa felicidade, de uma hipotética mudança dessas tais coisas imutáveis.

Devíamos, pelo contrário, aprender a viver com elas. Suportá-las com paciência. Descobrir nelas o lado bom que todas as coisas têm. Rir, até, com tudo isso. Nenhuma contrariedade nos devia impedir de rir durante muito tempo.

O sofrimento e as contrariedades hão-de acompanhar sempre – de um modo ou de outro – o percurso de cada homem. É verdade que todos os dias, ao abrirmos o jornal, damos conta de novos avanços na tecnologia, de outros horizontes que se abrem. E que isso cria um clima de eufórica expectativa no qual todas as maravilhas parecem possíveis de concretizar mais cedo ou mais tarde. Aquilo por que tanto esperamos pode vir anunciado no jornal de amanhã!…

Mas os avanços tecnológicos têm os seus limites. Há pontos em não podem tocar. Até porque aquilo que faz sofrer um homem é frequentemente causado por ele mesmo ou por outros homens.

Não devemos ser uma dessas pessoas que parecem exigir da vida aquele “tudo ou nada” que ela nunca concede. Isso seria uma forma de frustração sem fim, de sofrimento a dobrar que, além do mais, não nos permitiria saborear aquelas coisas maravilhosas que – apesar de tudo – nos são concedidas. “Se, de noite, chorares por não haver sol – escreveu Tagore – as lágrimas não te deixarão ver as estrelas”.

É desde muito cedo que se deve começar a ver as coisas desta forma. Os nossos filhos devem, desde pequenos, achar natural que muitas vezes a sua vontade, os seus desejos, não possam ser cumpridos… porque a vida é assim. Mais vale que chorem nessa altura – quando o desgosto é em coisas pequenas e lhes passa depressa – do que mais tarde, quando as consequências forem maiores.

Se os acostumarmos a isso – mas temos de vencer o impulso maternal, paternal, de acudir ao mais pequeno choro, à mais pequena exigência – teremos filhos rijos, fortes, preparados para enfrentar a vida com elegância e bom humor, com um sorriso perante cada situação difícil que os aguarda.

Paulo Geraldo