Adolescentes e violência escolar

O stresse e a solidão predispõem os adolescentes a comportamentos agressivos nas aulas.

Muitos adolescentes de hoje sofrem tensões e frustrações perante as quais se encontram muito sozinhos e indefesos. É assim que nasce a rebeldia agressiva, própria das pessoas inseguras, a qual, por vezes, desemboca em condutas transgressivas e violentas.
Acontece que a viagem desde a infância até à idade adulta costuma efectuar-se actualmente com menos companhia educativa e com menor equipamento de pautas de conduta do que há alguns anos atrás, o que contribui para aumentar o stress de transição típico desta etapa da vida.

Relação com carências afectivas

Este incremento do stress é consequência de se viver num lar destruído ou de pertencer a uma família em que, de facto, não existe vida familiar. Actualmente, muitos pais proporcionam aos filhos tudo aquilo que eles lhes pedem no campo material, mas não lhes dão tempo sem pressas, critérios morais, apoio emocional ou bons exemplos. Os adolescentes, para construírem a personalidade que está a nascer, têm necessidade de modelos com os quais se identifiquem, mas nem sempre os encontram na família.
Pelo contrário, fora dela encontram uma imensidão de pontos de referência que os desorienta. O modelo de muitos adolescentes é bastante pobre: é o de quem “arruma os livros” de forma prematura para conseguir um contrato milionário como futebolista ou como modelo de passerelle antes dos 25 anos.

Expectativas dos pais

O stress agrava-se com as expectativas pouco realistas de alguns pais instalados na “cultura do êxito”. Querem, a todo o custo, filhos vencedores; exigem-lhes que sejam os melhores da turma, que façam a carreira universitária que eles não puderam fazer ou que está na moda, sem colocarem a questão de se os filhos têm capacidade ou interesse para isso. É frequente que estes filhos acabem por ficar destruídos por dentro: culpam-se a si mesmos por não terem sabido corresponder ao que se esperava deles.

Um caso de violência escolar

Charles Andrew Wiliams, um adolescente de 15 anos, disparou várias vezes contra os seus companheiros de turma com uma pistola do pai que tinha sempre à mão. Sabe-se que tinha muito má imagem de si mesmo, devido a ser considerado na escola como uma pessoa estranha, o que o convertia em alvo de todas as brincadeiras. Também se sabe que tinha mudado para a localidade onde se deu o acontecimento uns meses antes, após o divórcio dos pais, ruptura que dividiu a família e o forçou a separar-se da mãe e do seu único irmão. Charles sentia-se um “Zé Ninguém” naquela idade em que se necessita de começar a ser alguém. Para se livrar de um vício de identidade que se tornava insuportável, tinha começado a beber e a fumar: queria ser um rapaz bem aceite por todos. Como isto não serviu para ganhar a admiração dos outros, tinha de fazer algo com grande impacto social: disparar em público com uma arma de fogo. Desse modo, seria notícia no dia seguinte em todos os meios de comunicação social. Charles preencheu o seu vazio de identidade com uma identidade negativa dada pela sociedade: transformar-se-ia no rapaz que protagonizou um tiroteio em Santee (Califórnia).

Uma cena violenta em cada 3 minutos

Os adolescentes dos nossos dias nasceram e cresceram numa sociedade na qual cada vez existe mais tendência para resolver problemas pela via da violência. Nota-se que existe tolerância social para com as condutas violentas: está a criar-se um clima de atracção pela violência, através da televisão, do cinema e dos vídeos.
Um estudo recente do Departamento de Criminologia da Universidade de Málaga defende que as cadeias de televisão espanholas emitem uma cena violenta por cada três minutos e 33 segundos.
Chega um momento em que os adolescentes já não distinguem entre a violência real e a fictícia: podem ver os acontecimentos do telejornal como se se tratasse de um filme policial ou de aventuras.

Escolaridade obrigatória

Quem não quer, ou não é capaz, de estudar é obrigado a fazê-lo, o que dá lugar a muitos casos de inadaptação nas aulas. Os inadaptados tornam-se violentos, e projectam a sua agressividade para o ambiente da turma.
A aula é o palco ideal (tem cenário e um público assegurado) para que os adolescentes possam representar a agressividade que foi gerada fora dela.

Educação permissiva

Mas há outras frustrações que podem resultar de estar na escola: uma delas é a que experimentam os adolescentes que ao longo da infância receberam em casa uma educação permissiva, sem nenhum tipo de exigência: habituados a fazer aquilo que lhes apetece e a não fazer aquilo que não lhes agrada, ficam irritados por terem de se adaptar a um plano de trabalho e a umas normas mínimas de convívio, boa educação e disciplina.

Conclusão

Os fenómenos de violência escolar requerem uma análise profunda: é preciso aprofundar nas suas causas pessoais, familiares e ambientais, e adoptar medidas de tipo preventivo. Mais vale prevenir do que remediar. Isto implica formar seriamente os pais e os professores em temas de psicologia e de educação da adolescência. Ensiná-los a ver o adolescente de forma positiva, descobrindo a função e as grandes possibilidades dessa etapa da vida; prepará-los para atender as necessidades emocionais dos jovens e para lhes formar a vontade; ajudá-los a educar os adolescentes nos valores como a paz, a vida, o respeito, a tolerância e a solidariedade.

(Gerardo Castillo, professor do Departamento de Educação da Universidade de Navarra – fragmentos)